"ESTE AR QUE
RESPIRAMOS, E NO QUAL VOAMOS !
(Um roteiro de aerodinâmica,
para pilotos}
Texto de: Francisco Leme
Galvão
"ATMÓS", o ar e a
atmosfera.
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1 - A atmosfera e um furacão no Caribe
Os gregos, com seu
conhecimento intuitivo, definiam o ar como um dos quatro
elementos que, junto com a
terra, a água, e o fogo, compunham toda a
natureza, e foi só
recentemente, com o estudo das propriedades especiais dos
gases em altíssimas
temperaturas, é que a ciência lhes deu razão,
acrescentando aos estados:
sólido, liquido, e gasoso, o plasma, como quarto
estado da matéria.
Aos gregos também, devemos
as raízes da palavra atmosfera, que usamos para
designar esta camada gasosa
que envolve o nosso planeta e os nossos corpos;
ou seja, o ar que
respiramos. Ao respirá-lo sentimos apenas que ele é tênue,
suave, inodoro, e a primeira
vista incolor. Será que estamos certos? Apenas
em parte. Realmente nossas
células olfativas não foram feitas para senti-lo
pois do contrario o seu
cheiro seria predominante em tudo.
Assim, o ar é inodoro. para
nós, e provavelmente para todos os demais seres
aeróbios que o respiram para
poder viver. Quanto ao resto estamos
redondamente enganados.
Então o ar tem cor? Sim,
basta observarmos, que as montanhas no horizonte
são tanto mais azuis quanto
mais distantes, ou então basta olharmos para
cima, que veremos o azul
celeste em todo o seu esplendor. Este azul, que aos
poucos irá se escurecendo
até se tornar negro como a noite, quando saímos da
atmosfera a bordo de um
foguete, deixando para trás, esta grande esfera
azul, que inspirou Caetano
Veloso a compor "Terra", ao ver as primeiras
fotos tiradas pelos
astronautas.
Nestas predomina o azul
escuro dos oceanos e o branco das nuvens, mal se
podendo notar o marrom dos
continentes, mas se observarmos bem, poderemos
ver nas bordas iluminadas da
terra, um fino traço azul claro contrastando
com o negro do espaço
sideral. É ela, a atmosfera, esta fina e tênue camada
gasosa formada basicamente
por: nitrogênio (78%) e oxigênio (20%), pois dos
demais gases, somente o
vapor d'água merece alguma menção, nos locais
quentes e úmidos.
Fina? Sim. 90% da atmosfera
estão contidos nos primeiros 16 Km de altitude,
o que comparado aos 12 000
Km do diâmetro da terra é quase nada. E tênue?
Será? Depende.
Em repouso o ar pode até ser
considerado tênue mas em movimento vai deixando
de sê-lo... A 100 Km/h, já
irá exercer uma força de 48 Kgf sobre cada metro
quadrado de superfície, que
colocarmos tentando barrar o seu movimento
(Obs.: O leitor menos
versado em sistemas de unidades físicas leia Kgf como
Quilo, e estamos
conversados) A 200 Km/h esta força já será de 193 Kgf., e
será multiplicada por quatro
a cada vez que dobrarmos a velocidade!
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2 - As montanhas ficam mais azuis com a distancia
Ao atingirmos 1200 Km/h
veremos este ar aparentemente tênue, tornar-se quase
que numa parede sólida. É o
fenômeno batizado na década de 40 como a
"barreira do som",
tão temida pelos primeiros pilotos que tentaram dela se
aproximar!
Para entendermos como isto
acontece precisaremos conhecer mais intimamente
este grande companheiro de
nossos vôos, mas põe intimidade nisto, é preciso
entrar em sua
"alma"! Vamos pegar um pequeno cubinho de ar de 1 mm de lado,
e ampliar 10000000 de vezes!
Pô meu, dez milhões de vezes, mas que exagero!
É isso mesmo, pois agora
passaremos a medir as coisas não em milímetros, mas
em ângstrons.
O que é isso? Um ângstron
representa uma distancia ínfima, tão ínfima que
num milímetro cabem dez
milhões deles. E a primeira coisa que iremos
encontrar em nosso cubinho
de ar ampliado é ....pasmem senhores: um grande
vazio! Mas não é só vazio é
claro. Em média a cada 30 ângstron vamos
encontrar bolinhas duplas
com a forma aproximada de um halteres, que são as
moléculas dos gases que
compõem o ar e que no caso do Nitrogênio pôr exemplo
medem 4 Angstrons.
Um fato que dá uma idéia de
como as moléculas são pequenas, é que existem
mais moléculas de ar dentro
dos nossos pulmões do que de litros de ar em
toda a atmosfera terrestre.
Isto permite afirmar, entre outras coisas, que
dentro dos pulmões do leitor
existe com certeza§ pelo menos uma molécula de
nitrogênio que também já foi
respirada pelo faraó Tutakamom durante sua
curta vida no antigo Egito!
(§ certeza estatística baseada nas leis de
difusão de gases e no tempo
decorrido)
Mas voltando ao nosso exame,
vamos constatar que estas moléculas não estão
paradas, mas sim movendo-se
todas desordenadamente em todas as direções
possíveis, e chocando-se uma
com as outras (um choque em média após cada 600
Angstrons percorridos).
Algumas estão quase que paradas enquanto que outras,
deslocam-se por exemplo com
a velocidade de 3000 Km/h!
Já a velocidade resultante,
ou média de todas elas, será por exemplo, zero
para o ar em repouso dentro
de uma sala, ou de 18 Km/h na direção horizontal
e sentido sul para um vento
Norte de 10 nós, e assim por diante. Isto se
considerarmos nesta média,
não só os valores mas também as direções e
sentidos destas velocidades.
Mas se nesta média, considerarmos apenas os
valores destas velocidades,
obteremos em ambos os casos acima, o valor de
1800 Km/h (média
quadrática). Finalmente a média dos valores, das
velocidades projetadas numa
direção, e tomados num único sentido, será da
ordem de 1224 Km/h.
Esta não é a velocidade do
som ? Sim. Qualquer perturbação no ar, só se
propaga por meio de choques
entre suas moléculas e portanto esta será a
velocidade de sua
propagação, e o som nada mais é que uma perturbação
repetida numa certa
freqüência.Nos não podemos ver as ondas sonoras no ar,
mas elas se espalham de modo
muito parecido com as ondas formadas numa
superfície de água calma
quando a perturbamos atirando uma pedra
E tal como um barco ao se
deslocar mais rápido do que a velocidade de
propagação destas ondas, as
empilha na proa deixando para traz um "V" de
marola, assim também um
objeto deslocando-se a velocidade acima da
velocidade do som, deixa
para trás de si um cone de onda de choque. E como a
marola de um barco, que é
tanto maior quanto maior for o mesmo e mais veloz
e mais perto ele passar, assim
também, o "bang" produzido no solo pôr um
avião supersônico será tanto
maior quanto maior e mais veloz for o avião e
mais baixo ele passar,
podendo até mesmo estilhaçar vidraças.
Os valores até aqui
mencionados de distancias e velocidades valem para o ar
a uma temperatura de 15
graus C e ao nível do mar onde o ar é mais denso
pressionado pelo seu próprio
peso. A medida que vamos subindo em altitude o
ar vai ficando cada vez mais
rarefeito, ou seja teremos menos moléculas pôr
unidade de volume. A 4000
metros de altitude o número de moléculas de
oxigênio, embora continue a
ser os mesmos 20% do total, como no nível do
mar, já começa a ser
insuficiente para o funcionamento correto de nossos
pulmões.Daí a necessidade de
se aumentar o seu número, seja com o uso de
máscaras com oxigênio, ou
seja aumentando a pressão ambiente, ou
pressurização.
Acima de 15000 m, o número
de moléculas cai tanto que até mesmo as
existentes em forma líquida
em nosso corpo começam a evaporar e a ocupar os
vazios, sendo então, absolutamente
necessária a pressurisação da cabina.Mas
mesmo lá onde orbitam os
satélites artificiais, iremos encontrar moléculas
desgarradas de nossa
atmosfera.
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3 - Formação de um cone de "Mach".
Coitadinhas, estão tão
isoladas, que na altura de 400 Km, por exemplo, irão
somente se chocar a cada 10
quilômetros percorridos, o que é muito para quem
estava acostumado a
encontrar-se caminhando apenas alguns Angstrons. Apesar
de poucas, são elas que,
ajudadas por partículas atômicas emitidas pelo sol,
são as responsáveis com os
seus choques, pela redução gradativa da
velocidade dos satélites de
órbita "baixa", trazendo-os de volta à terra
inexoravelmente.
Desde a antigüidade o homem
notando a "força" do ar em movimento, mesmo
ainda sem compreende-la
devidamente, colocou-a a seu serviço construindo
moinhos de vento, barcos a
vela, etc. Mas, só bem mais tarde no século XVIII
usando os primeiros
conhecimentos já obtidos pôr Torricelli no século XVI, o
ar foi usado para vencer a
atração da gravidade, fazendo subir os primeiros
balões.
Já a natureza nunca se fez
de rogada para, usando e abusando do ar como
aliado, obter desde o
transporte aéreo de sementes como as da paineira, como
também a locomoção animal
inaugurada pelos insetos primitivos, e seguida por
animais vertebrados, os
pterosauros, estes já ha 200 milhões de anos! E
observando a natureza e os
pássaros o homem, este eterno invejoso, decidiu
que poderia também voar, o
que hoje fazemos das mais diferentes estranhas
maneiras em: balões, asas
deltas, para-gliders, "trikes", planadores,
aviões, helicópteros e
foguetes.
Hoje também, já pudemos
elaborar as ciências chamadas aerostática e
aerodinâmica, das quais
iremos abordar , de modo simplificado alguns
conceitos básicos,
aproveitando-se do nosso conhecimento "íntimo" do ar.
"BARYS", flutuando
no ar.
Um primeiro princípio básico
a ser retido é que toda força exercida pelo ar
sobre qualquer corpo nele
imerso, decorre única e exclusivamente dos choques
de suas moléculas contra a
superfícies externas ou internas deste corpo. Uma
conseqüência deste princípio
é que todas estas forças sejam elas
aerodinâmicas ou
aerostáticas e não importando se as chamemos de
Sustentação, Empuxo,
Arrasto, etc. irão depender apenas da quantidade de
moléculas e das velocidades
do choque entre estas e as superfícies de um
corpo, esteja este ou o ar
em repouso ou em movimento
Todas estas forças estão
aplicadas portanrto na superfície do corpo, e podem
ser reduzidas a apenas duas
componentes: uma perpendicular à superfície
gerando o que chamamos de
pressão e outra paralela à superfície gerando o
que chamamos de fricção.
Aperte uma mão contra a outra e você sentirá o que
é pressão, esfregue uma mão
contra a outra e você sentirá o que é a
fricção.Simples assim? Sim.
Tudo o mais, é uma mera questão de dar nomes
diferentes para bois que são
de apenas duas raças, ou seja: zebús, ou
holandeses.
Ah mas e aquele tal de
"arrasto induzido"? Calma, chegaremos lá. Comecemos
pelas forças de pressão
exercidas pelo ar..."parado"! Já vimos que as
moléculas do ar nunca param,
e se não sentimos a sua pressão é porque elas
nos bombardeiam por todos os
lados igualmente
Tampe a boca com a palma da
mão e aspire parte do ar da boca para os
pulmões. Você terá mais
moléculas de ar se chocando pelo lado de fora do que
pelo lado de dentro de sua
mão que será então pressionada (ou chupada) por
uma força de fora para
dentro. Se conseguíssemos aspirar todas as moléculas
de dentro da boca (nossos
músculos do tórax estão muito longe desta façanha)
esta força seria, ao nível
do mar e a 15 graus, de 1 Kgf por cada centímetro
quadrado, ou seja de 10140
Kgf por metro quadrado que é a pressão, que
chamamos de um
"bar" ou de uma atmosfera.
Como vimos, o número de
moléculas cai com a altitude e portanto o mesmo irá
ocorrer com esta pressão do
ar mesmo para pequenas variações de altitude.
Assim, em qualquer corpo a
pressão atmosférica sobre a superfície de baixo
será sempre maior do que a
pressão na superfície de cima e haverá sempre uma
força ainda que pequena,
proporcional ao volume do corpo empurrando-o para
cima, levemente.
Se tomarmos, por exemplo um
corpo bem leve como uma bola bexiga cheia de ar,
por que então ela não sobe?
Porque esta força para cima é exatamente igual
ao peso das moléculas de ar
que estão dentro da bexiga e assim, devido ao
peso adicional da borracha,
a bexiga cai. (este mesmo peso de ar faz com que
a pressão interna também
seja maior na superfície inferior do que na
superior anulando a força
externa)
Se substituirmos as
moléculas de ar dentro da bexiga por moléculas de
hidrogênio ou hélio, que são
mais leves que as de nitrogênio e de oxigênio,
a soma do peso do gás
interno (ou da diferença de pressão interna) com o
peso da bexiga será menor
que o empuxo atmosférico, e então a bexiga irá
subir, e muito, para
desespero do guri que não segurar o barbante.
Aquecendo-se o ar, ou seja
fornecendo-lhe energia, aumentamos as velocidades
de suas moléculas e o
impacto dos choques entre elas fica mais forte,
afastando-as uma das outras
de modo que, teremos menos moléculas por unidade
de volume ou seja o ar fica
mais "leve" ou menos denso. É o que fazemos nos
balões de ar quente, e tal
como no caso da bexiga reduzimos o peso do ar
interno, para que o balão
suba, empurrado pela diferença das pressões
externas..
"DYNAMIS", o ar em
movimento.
Agora que já temos alguma
idéia sobre as forças do ar em repouso, vamos
procurar entender o que
acontece com ele em movimento, ou quando nele nos
movimentamos, o que como já
vimos, dá na mesma coisa. Os livros de
aerodinâmica e os
cientistas, por usarem túneis de vento para neles
verificarem suas teorias,
consideram quase sempre os corpos parados e o ar
em movimento.
Já para nós que somos
pilotos, ficará talvez mais fácil abordarmos as coisas
do ponto de vista inverso,
ou seja, nós é que nos movimentamos no ar parado,
ou quase...(desprezando a
velocidade do vento e da turbulência) Para isto, o
melhor que fazemos é
esquecer o ar real com suas moléculas e considerar um
ar teórico formado por
"partículas" de ar muito pequenas, mas
suficientemente grandes para
conter milhões de moléculas. Assim fazendo
poderemos,
"esquecer" as velocidades individuais das moléculas e considerar
apenas aquele valor médio
estatístico (em valor, direção e sentido) das
partículas e que chamaremos
simplesmente de velocidade do ar.
Isto não é difícil, porque
também as células nervosas de nossa pele, sendo
muito maiores que as
moléculas de ar, não nos transmitem os impactos das
moléculas "reais",
mas apenas a média dos seus efeitos em cada célula, ou
seja, o que sentimos é o
impacto das partículas, que são "irreais"! Bah
tchê!
E é bom que não esqueçamos
disso, pois muitos livros tratam as partículas de
ar como entes físicos
...reais! Enfim, já vi livros que afirmam que o
arrasto induzido é resultado
da energia gasta pelos vórtices de ponta de
asa! Isto, para não falar
nas "barbaridades" contidas na descrição que
algumas enciclopédias
(algumas até recentes) fazem do vôo de um avião
O fundamental em
aerodinâmica é que: a toda e qualquer variação de
velocidades das partículas
de ar (ou seja da media das velocidades
moleculares) provocada por
um corpo, corresponderá sempre uma força exercida
pelo ar sobre este corpo na
direção e sentido opostos a esta variação e...
vice e versa.
Complicado? Certamente não.
Isto é simplesmente outra maneira de se enunciar
um dos princípios básicos da
física, de que a toda ação corresponde uma
reação igual e contraria, e
que como veremos adiante, irá tornar mais claro
os fenômenos ligados ao vôo.
É importante notar que a
mesma força aerodinâmica poderá ser tanto obtida
deslocando-se um pequeno
volume (quantidade) de ar com velocidades altas,
quanto deslocando-se um
grande volume de ar com velocidades baixas. Mas
apesar da força obtida ser a
mesma, menores volumes e maiores velocidades
irão exigir maiores
potências, como já pudemos sentir nas pernas, ao
empurrar um carro sem
bateria para que pegue. A potência exigida pela
aplicação de uma força é
proporcional à velocidade desta aplicação.
E, muito cuidado, já nos
alertava nos idos de 58 no ITA, "Herr" Schrenk,
nosso mestre alemão, aos nos
iniciar nas sutilezas da aerodinâmica: "pois
FFFFFF", fazia
assoprando o ar, "é muito diferente de "HSHSHS", fazia, desta
vez chupando o ar.
Realmente, assoprando criamos um jato cilíndrico de ar,
com o qual podemos apagar um
fósforo aceso mesmo a uma distancia de 30 cm.
Já ao aspirarmos, mesmo com
os lábios fazendo "biquinho", o ar penetra vindo
de todas as direções, e este
movimento, somente poderá ser observado a curta
distancia, tão curta que para
faze-lo é mais prudente, trocar o fósforo
aceso, pela ponta de um
dedo....
"RASTRUM",
enfrentando o vento.
Vamos em frente, coloquemos
a mão espalmada para fora de um carro rodando a
100 Km/h (nunca esquecer de
antes, checar o retrovisor) e o esforço para
mante-la nesta posição será
o equivalente a segurar um saco de ½ Kg de pó de
café.
Poderíamos imaginar que as
velocidades médias de impacto das moléculas
contra as superfície seriam
modificadas na direção do movimento do carro de
1240 Km/h para 1340 Km/h na
superfície dianteira e para 1140 Km/h na
traseira e isto explicaria a
diferença de pressão e a força que sentimos.
Certo? Errado! As
velocidades médias de choque na direção perpendicular a
ambas as superfícies da mão
continua a ser de 1240 Km/h.
O efeito destes choques se
propaga nessa velocidade em todas as direções
alterando as velocidades das
partículas já antes que sejam atingidas pela
mão, mas tal como no caso do
ar aspirado, estes efeitos afetam apenas
partículas a distancias
relativamente pequenas. Estas se acumulam na face
dianteira aumentando aí o
número de moléculas e de choques, e em
conseqüência a pressão, de
modo especial no centro, onde ocorre o maior
acúmulo.
A 100 km/h este acúmulo é de
apenas 5%, mas já resulta nos 48 Kgf/m2.
Do centro as partículas se
deslocam lateralmente escapando pelas bordas, e
aquelas que adquirirão a
velocidade da mão, são como que "arrastadas" por
ela, e passam a acompanhar a
face traseira, mantendo assim sobre esta,
inalterados tanto o número
de moléculas como a pressão. Na fronteira da
região contendo as
partículas "arrastadas" e o fluxo externo formam-se
redemoinhos (ou vórtices).
Esta força que sentimos na
mão, e é chamada de arrasto .de pressão, e
decorre portanto, apenas do
aumento de pressão em sua face
dianteira.Confirmando a lei
da ação e reação tem sentido oposto a variação
de velocidade das partículas
aceleradas para frente ou arrastadas (ver
abaixo)
Imagem
4 -
Na água mais uma vez, fica
mais fácil visualizar tudo isto. Deslocando-se um
remo, na frente deste, o
aumento de pressão é evidenciado por uma ligeira
elevação de nível, e atrás,
vemos a "água morta", que acompanha o movimento
do remo margeada por
redemoinhos. Observando melhor o nível d'água no centro
dos redemoinhos podemos
observar que ele é ligeiramente rebaixado, indicando
uma queda de pressão, bem
localizada. Isto também é valido para os centros
dos vórtices aéreos,
inclusive para os grandes vórtices atmosféricos, que
são os tornados e os
furacões em cujos centros (ou "olho" nos furacões), os
barômetros despencam.
Voltando ao remo, este tal
como as roda d'água, as velas do tipo "buja", as
asas dos insetos, etc. são
mecanismos que usam a força de arrasto como meio
de propulsão. Como a
propulsão usando outro tipo de força aerodinâmica que
veremos mais adiante, a
"sustentação", é muito mais eficiente, normalmente o
que se procura no projeto de
veículos, é a redução máxima possível do
arrasto de pressão.
Basta observar o movimento
da vegetação na beira da estrada, após a passagem
de um caminhão do tipo baú,
para se ter uma idéia do enorme desperdício de
energia e combustível,
causado pelo arrasto de pressão destes dinossauros
modernos. Nos carros, já se
consegue uma boa redução de arrasto de pressão,
com o uso de dianteiras em
formas de cunha, mas para se obter uma redução
radical, seria necessário o
uso de formas alongadas, como as dadas para os
dirigíveis e fuselagens dos
aviões.
Com estas, é possível se
obter um aumento de pressão também na parte
traseira do corpo,
compensando-se o aumento na parte dianteira inevitável
por mais pontiaguda que esta
seja, e assim podendo-se chegar a valores
ínfimos de arrasto de
pressão. Outra alternativa seria apelar-se para uma
redução de área frontal, e
voltando-se ao exemplo de nossa mão, basta
gira-la de 90 graus, de modo
a "cortar" o vento para sentirmos de pronto uma
redução drástica no arrasto.
"FRICTION",
deslizando no ar
Mas mesmo para uma chapa
muito fina e alinhada com o vento e tendo portanto
um arrasto de pressão
praticamente nulo, iremos detectar em sua esteira, uma
fina camada de partículas
arrastadas na direção do seu movimento (ver
figura) e indicativas de uma
força se opondo ao mesmo, ou seja, uma força de
arrasto.
Esta força é o que chamamos
de arrasto de fricção e resulta das componentes
de força paralelas à
superfície, devido aos choques das moléculas com a
superfície externa do corpo.
Ela será portanto tanto maior quanto maior for
a superfície em contato com
o ar e quanto maiores forem as velocidades
tangenciais das partículas
junto a superfície.
Imagem
5-
Observando seja a fumaça de
um cigarro ou a coluna de água escorrendo de uma
torneira (de baixa pressão)
iremos verificar que até uma certa distância da
origem, o fluxo é contínuo e
suave mas que a partir de um certo ponto,
aparecem oscilações e
pequenos redemoinhos que vão se ampliando Assim
também, as partículas de ar
arrastadas por fricção, formam junto a
superfície, inicialmente um
fluxo suave e em lâminas, denominado laminar, e
posteriormente com micro
turbilhões ou fluxo turbulento.
Logo no início, na região
laminar, a fricção que é muito alta, cai
rapidamente pois junto a
superfície acumula-se um número cada vez maior de
partículas
"arrastadas" reduzindo as velocidades tangenciais de choque. Mas
tão logo aparecem os micro
turbilhões, estas partículas são afastadas da
parede e substituídas por
outras ainda não arrastadas, elevando novamente o
valor da fricção, que agora
pelo mesmo motivo, passa a cair de modo muito
mais lento. O resultado é
que a fricção total na região laminar é muito
menor do que na turbulenta,
e por este motivo se procura retardar o
aparecimento da turbulência
tanto quanto possível.
Quanto maior for o
comprimento e a velocidade da superfície, ou seja, a
escala do movimento que é
representada por aquele número mágico que você já
deve certamente ter ouvido
falar: o "número de Reynolds", mais cedo tenderão
a aparecer os micro
turbilhões. Nas asas estreitas dos planadores, pode-se
obter, escoamentos laminares
se estendendo do bordo de ataque até o meio ou
50% da superfície superior,
e até 75% de sua superfície inferior, desde que
se usem perfis especiais e
bom acabamento superficial.
Em aviões esta porcentagem
de escoamento laminar, na atitude de vôo de
cruzeiro não costuma
ultrapassar os 15 a 25% para asas de construção
convencional e 35 a 40 % nas
construídas em material composto e empregando
os chamados perfis
laminares, inaugurados pelo P-51 "Mustang", um dos
melhores aviões de
"caça" da II guerra.
Nos jatos, as pesquisas
prosseguem para se tentar estender a laminaridade
além dos 5 a 10%, mas está
difícil, pois até mesmo em velocidades mais
baixas o escoamento laminar
é instável como o humor feminino "naqueles
dias". Insetos, cabeças
de rebites, juntas, ondulações, etc., podem
antecipar a formação dos
micros turbilhões, e por isso devem ser evitados
nas superfícies dianteiras
ou bordos de ataque das asas, empenagens e
hélices.
Estas devem portanto ser
mantidas o mais limpo e livres de defeitos quanto
possível mas na verdade,
para um desempenho otimizado, este mesmo cuidado é
válido para todas as
superfícies restantes. Isto porque o arrasto provocado
individualmente por cada
excrescência é até maior na região de fluxo
turbulento onde as
velocidades próximas a superfície são maiores!
Ah, e o arrasto induzido? Vamos
com calma, que chegaremos lá, pois antes
vamos responder a uma
pergunta que é tão comum quanto mal respondida.
"SUSTENTATIO",
decolando afinal!
E porque é que, ou como é
que, um avião sendo mais pesado que o ar, pode
voar? Quem de nós pilotos já
não passou por essa sabatina?
A explicação convencional
começa pela descrição de que a parte de cima da
asa é curva, a de baixo é
reta e ai a velocidade em cima tem que
ser...maior, e sendo maior,
de acordo com a lei de Bernoulli, a pressão é
menor, blá, blá, blá....
Arreh! Assim não dá! Esta resposta não só é
complicada como diz apenas
parte da verdade, pois pode-se voar perfeitamente
com uma asa plana, seja com
uma pipa, ou com um aeromodelo de balsa. Ela
também não explica como voam
os aviões com asas de perfil simétrico como um
B-17, ou um
"Sukhoy" acrobático!
Podemos, isto sim, usando o
princípio de ação e reação, e o seu já visto
equivalente aerodinâmico que
relaciona forças às velocidades induzidas no
ar, dar a resposta mais
inteligível, simples, e correta que conheço, que é a
seguinte: A hélice acionada
pelo motor, devido ao ângulo de suas pás, joga
ar para trás e assim empurra
o avião para a frente. Com este movimento a
asa, devido ao seu ângulo de
ataque (e ou curvatura), joga para baixo uma
grande quantidade de ar e
isto empurra o avião para cima.
Podemos facilmente notar o
fluxo de ar lançado para trás por uma hélice ou
por uma turbina a jato,
pelos chapéus arrancados ou pela poeira levantada,
pois as velocidades
envolvidas são elevadas. Da ordem 100 Km/h para as
hélices chegam aos 1000 Km/h
para os jatos podendo mesmo ser supersônicas no
caso dos reatores de aviões
militares.
Bem mais difícil é
percebermos o fluxo de ar lançado para baixo pela asa,
pois este se distribui ao
longo de toda a superfície por ela sobrevoada em
seu movimento para frente e
as velocidades envolvidas são muito menores.
Mesmo na decolagem de um
Boeing 737, o "down-wash" ou velocidade vertical do
ar em sua
"esteira" é da ordem de apenas 10 m/s (36 Km/h), e na de um
Paulistinha é de 4 m/s. A
asa de 15 m de um planador de 300 Kgf. voando a 75
Km/h, produz um mero sopro
descendente de 0,7 m/s. Quanto maior a velocidade
e maior a envergadura maior
quantidade de ar é posta em movimento e menor a
velocidade vertical
necessária para se obter a mesma força de sustentação.
Na fronteira entre o ar
descendente e o ar não perturbado formam-se dois
redemoinhos, mais conhecidos
como os vórtices de ponta de asa, que são tão
mais violentos quanto
maiores as velocidades verticais geradas pela asa.
Sempre que vou para o Rio de
avião comercial procuro um lugar com vista para
o bordo de fuga da asa, e
quase sempre sou brindado no pouso, com a visão de
uma trança de
"fumaça" branca se enrolando e descendo a partir da ponta
externa do flape todo defletido.
É o vapor d'água do ar úmido, típico de
beira mar que se condensa
devido a baixa pressão no interior dos dois
vórtices criados pela
diferença de velocidade vertical, que existe entre as
regiões da asa com flape e a
sem flape, tornando o fluxo visível. Quem não
viu procure ver. É lindo!
Agora que sabemos a grosso
modo porque o avião voa, vamos esmiuçar melhor o
que acontece entre a asa e o
ar. Podemos iniciar retomando a nossa chapa
plana colocada fora da
janela do carro, inicialmente alinhada com o vento. É
preciso segurar firme pois
dando-se um pequeno ângulo de modo a elevar seu
bordo dianteiro, já iremos
sentir uma forte força para cima. Vamos tentar
explicar o que está
ocorrendo.
Imagem
6 -
Na parte de baixo há um
pequeno acúmulo de moléculas, das partículas que vão
sendo defletidas para baixo
como bolas de tênis chocando-se com uma raquete
inclinada (Ver figura). Este
acúmulo é grande no bordo dianteiro diminuindo
ao longo da chapa e
desaparecendo no bordo traseiro. Mas o mais importante
ocorre na parte de cima onde
devido a inércia, as partículas levam algum
tempo para serem desviadas
para baixo por efeito dos choques moleculares das
demais partículas, o que
provoca uma redução no número de moléculas ainda
mais forte que o acúmulo na
parte de baixo. Temos portanto um aumento de
pressão na face inferior e
uma redução de pressão ainda maior na face
superior, especialmente no
bordo dianteiro ou de ou bordo de "ataque".
Aumentando-se o ângulo,
acentua-se ainda mais a diferença, a sucção superior
chegando a ser mais do que o
dobro do valor da pressão inferior! Isto
aumenta a força resultante
sobre a chapa, que obviamente devido ao seu
ângulo, tem uma componente
para trás ou seja uma força de arrasto, que
também será tanto maior
quanto maior este ângulo (olha aí o arrasto induzido
fazendo o seu
"debut"). Este arrasto, somado ao sempre presente arrasto de
fricção, também aumentado
devido ao aumento das velocidades tangenciais,
aumenta o número de
partículas arrastadas, que vão se acumulando na esteira
do bordo posterior ou bordo
de "fuga" da chapa.
Ao atingirmos um ângulo cujo
valor dependendo da geometria em planta e do
bordo da chapa, poderá ser
de 12 a 20 graus, as partículas arrastadas, até
então afetando apenas o
bordo traseiro começam a invadir toda a superfície
superior, o que para uma
chapa plana, ocorre de modo súbito. O número de
moléculas e a pressão na
face superior voltam ao normal e desaparecendo a
sucção, com ela perde-se 2/3
da força sobre a chapa, que agora resulta
apenas das pressões na parte
inferior.
Este é um fenômeno que todos
nós pilotos, conhecemos e já vimos ocorrer com
as asas de nossas aeronaves:
é o famoso "estol e que ocorrendo a baixa
altura nos poderá ser
fatal". Os projetistas de aviões procuram, jogando com
a forma em planta e dos
perfis da asa, obter uma invasão lenta e gradual das
partículas arrastadas, para
que o piloto tenha tempo de reduzir o angulo da
asa.
. Para retardar o fenômeno,
pode-se defletir a parte traseira inferior da
asa com um flape do tipo
"split", que irá concentrar sobre ele as partículas
arrastadas. Pode-se ainda
varre-las para trás usando passagens de ar ou
fendas com um flape do tipo
"sloted" ou proteger de modo semelhante, o bordo
de ataque e seu pico de
sucção com um "slot". Até mesmo os vórtices podem
ser usados para esta função,
como acontece nas asas deltas dos caças
supersônicos ou de um
Concorde, nas quais se atinge ângulos de ataque perto
dos 30 graus, sem estol mas
obviamente a custa de enormes valores de
arrasto...induzido!
Acho que já deu para
perceber que o arrasto induzido nada mais é, que a
componente para trás daquela
força resultante das pressões e sucções, que
também criam a sustentação
(ver fig.).Assim sendo, quanto maior for a
sustentação, maiores serão o
ângulo eo arrasto induzidos, e as velocidades
para baixo e portanto mais
fortes serão os vórtices de ponta de asa que não
criam o arrasto induzido,
mas tem a mesma origem deste.
Imagem
7 - Componentes da força aerodinâmica resultante sobre uma placa
As partículas afetadas, e
defletidas para baixo por uma asa (ver figura), se
encontram dentro de um
"tubo" ou cilindro, cujo diâmetro é definido pela
envergadura (distancia de
ponta à ponta da asa), e cujo volume é
proporcional ao quadrado
desta. e se tivermos metade da envergadura, teremos
quatro vezes menos
partículas defletidas
Vamos então comparar em vôo,
dois aviões com o mesmo peso, voando na mesma
velocidade, mas com asas de
diferentes envergaduras. Para obter a mesma
força de sustentação, o de
asa mais curta (menor envergadura), defletindo um
menor volume de ar, terá que
gerar maiores velocidades verticais, o que para
a mesma velocidade de vôo só
se consegue com um ângulo de ataque adicional,
(ângulo induzido) e portanto
um maior arrasto induzido. Capito?
Imagem
8 -
"AVIS", o modelo
da perfeição.
E a curvatura da asa? Bem
desde Da Vincci e Lilienthal, que já aprendemos
com os pássaros, que um modo
muito mais elegante de se defletir o ar para
baixo é curvar-se a
superfície da asa, o que eqüivale a dar-lhe um ângulo
pagando-se um menor preço em
termos de arrasto. Mas como nada é de graça,
paga-se em termos de peso de
estrutura, devido aos aumentos: da torção na
asa, e da carga de
equilíbrio na cauda.
Como este efeito aumenta com
a velocidade, o ideal seria se ter como nos
pássaros, a curvatura
variável: pequena em alta velocidade, e grande em
baixa velocidade, quando
então é necessário se obter grandes deflexões do